quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Casarões em Bairros Nobres Ameaçam se Tornar Micos do Mercado

Construções chegam a ficar dez anos à espera de um comprador

Encravada no Alto de Pinheiros, a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima é uma área de vários casarões. Além da sucessão de exemplares suntuosos de uma miscelânea de escolas arquitetônicas, quem passa por ali hoje em dia não deixa de notar a quantidade de placas de “vende-se” na porta de uma série de residências. Ao todo, a via reúne catorze ofertas no momento, com preços em torno de 2 milhões de reais. O imóvel mais caro é uma mansão de estilo colonial, com 1.000 metros quadrados de área construída. À espera de um comprador há cerca de dez anos, garantem corretores da região, o casarão reúne quatro suítes e oito vagas na garagem, além de dois escritórios, sala com lareira, piscina e jardins. A pedida já foi de 6,5 milhões de reais. Recentemente, o valor caiu para 5,8 milhões de reais. “Agora, o dono está prestes a fechar negócio”, garante um corretor da Sotheby’s Internacional Realty, uma das principais corretoras do mercado de luxo em São Paulo.

Passar para a frente um produto premium sempre demandou mais tempo, pelos valores envolvidos e pelo círculo rarefeito de possíveis clientes. Nos últimos tempos, porém, o trabalho ficou mais duro. O fenômeno verificado no Alto de Pinheiros se repete em bairros como Morumbi, Pacaembu e Interlagos. Enquanto um apartamento de dois dormitórios — atualmente, o tipo de moradia mais procurada da metrópole — leva cerca de três meses para ser comercializado, uma construção de alto padrão demora pelo menos o triplo, segundo cálculos dos especialistas no mercado.

No caso do Alto de Pinheiros, parte do problema é a própria Avenida Diógenes Ribeiro de Lima. “É uma rua esquisita, pouco iluminada e que não atrai visitantes”, afirma o corretor Germa no Leardi, dono de uma empresa que atua na vizinhança. No Morumbi, casas de cinema chegam a custar até um terço do valor de bons apartamentos nos Jardins ou na Vila Nova Conceição. Nesse caso, problemas de segurança costumam afastar potenciais interessados. “É o melhor lugar da cidade, oferece uma ótima qualidade de vida e é perto de tudo”, diz um executivo, que não quis se identificar. Ele tenta há três anos vender uma propriedade da família por 3,9 milhões de reais, com 1.321 metros quadrados de área construída. Outra espaçosa residência na região, avaliada em 3,2 milhões de reais, está há dois anos esperando uma boa oferta.

Um fator que ajuda a transformar uma mansão num mico é a desatualização de alguns projetos. Endereços com poucas vagas na garagem e um número pequeno de suítes costumam ter menos liquidez. Há também casos de obras erguidas numa época em que as famílias eram bem mais numerosas. No fim da década de 70, por exemplo, o empresário Albino Coelho levantou um imóvel com cinco suítes no Alto de Pinheiros para abrigar os três filhos e a mãe, além dele e da mulher. As crianças viraram adultas e ele, depois de desocupar o endereço, colocou-o à venda no início de 2010 por 3,5 milhões de reais. “Enquanto não encontro um interessado, preciso arcar com os custos de manutenção”, conta Albino. São 12.700 reais por ano só de IPTU, além do salário de um vigia e dos serviços de reparos para que o local não fique com aspecto de abandonado.

Veja São Paulo – 27/11/11

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