Imóveis pertenceram às Indústrias Reunidas Matarazzo, que marcaram história da cidade
RODRIGO BRANCATELLI - O Estado de S.Paulo
Parte de um dos maiores complexos industriais que já existiram na América Latina, os galpões das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, foram tombadas ontem pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Conpresp). A boa notícia para a memória paulistana, no entanto, esbarra em anos de decadência e abandono do antigo complexo, que hoje está reduzido apenas a algumas paredes e fachadas degradadas.
O processo de tombamento dos galpões localizados na Rua Borges de Figueiredo, entre os números 680 e 828, corre no Conpresp desde 2007.
Na reunião de ontem, o órgão de patrimônio avaliou ser necessário conservar o que restou das Indústrias Matarazzo por considerar a "importância histórica da implantação da antiga linha ferroviária da São Paulo Railway, bem como das instalações industriais e armazéns de matérias primas e mercadorias no processo de industrialização da cidade".
Deverão ser preservados agora os elementos remanescentes da arquitetura industrial do local - que abrigou ainda a Société Établissements Duchen e a Companhia Fiat Lux -, além de uma chaminé datada de 1911.
O problema é que, apesar do tombamento, pouco restou das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo. Paredes e coberturas caíram com as chuvas, o tempo e o descaso - segundo moradores da região, algumas construtoras também tentaram a provocar a queda de algumas paredes dos imóveis abandonados da região, para forçar o Conpresp a não tombar os endereços históricos da Mooca, hoje uma das áreas mais disputadas pelo mercado imobiliário.
O terreno dos galpões, por exemplo, já pertence a uma construtora, que tem protocolado na Secretaria Municipal de Habitação um projeto de construção de dois prédios de 7 andares e 25 metros de altura, com subsolo para 133 vagas de estacionamento. Para aprovar o projeto, a construtora terá de incorporar de alguma forma as paredes e fachadas das Indústrias Matarazzo no empreendimento.
Bovespa. O Conpresp também aprovou ontem projeto de restauro do prédio da Bovespa, na Rua 15 de Novembro, e instalação de sinalização do Circuito Ciclístico Turístico Cultural, no centro de São Paulo.
Cidade não tem política pública para imóveis históricos
01 de fevereiro de 2012 | 3h 05
O Estado de S.Paulo
Cenário: Rodrigo Brancatelli
Em todo o mundo, há exemplos de áreas degradadas de antigos galpões industriais que foram restaurados e revitalizados com apoio do poder público, como Puerto Madero, em Buenos Aires, na Argentina, e Pul 5, em Zurique, na Suíça. Esse locais ganharam museus, restaurantes, livrarias... Já em São Paulo nunca houve política pública para dar destinação adequada a imóveis históricos. Poucos foram os exemplos de recuperação, como a Casa das Caldeiras, o Palácio das Indústrias ou o Memorial do Imigrante. O resultado natural foi a degradação.
"Essa política pública deveria ter sido formulada há mais de 20 anos, para dar um fim adequado aos imóveis históricos da cidade", diz o pesquisador e fotógrafo Douglas Nascimento, autor do blog São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br) e integrante do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. "Hoje só sobraram ruínas. Por isso, a única destinação em que pensam é fazer prédios, demolir o que sobrou para construir espigões residenciais ou comerciais. Por mais triste que possa parecer, temos de encarar a realidade: os galpões da Mooca são um exemplo disso. Nossa política de patrimônio está muito atrasada, há décadas infelizmente."
A presença de marcos históricos importantes na capital, como os grandes galpões do início da industrialização, acaba virando não solução, mas interferência no mercado imobiliário. Na Mooca, dos quase 150 mil m² que poderiam dar lugar a espigões residenciais na região, mais de 100 mil m² estão comprometidos por processos de tombamento. Muitos dos endereços congelados contam a história do passado fabril do bairro, marcado pela presença de empreendedores italianos. As Indústrias Matarazzo foram um desses grandes símbolos da memória da Mooca - no auge, nos anos 1950, a empresa empregava 30 mil pessoas em quase 100 empresas nos setores metalúrgico, químico, têxtil, de alimentos, limpeza, embalagens e materiais de construção. Hoje, sobraram apenas os tijolos.
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