Para driblar falta de mão de obra na indústria, companhias investem em métodos capazes de aperfeiçoar o processo de edificação
Gustavo Coltri
A escassez de mão de obra na construção civil e a necessidade de ganhos de produtividade empurram o Setor em direção à inovação e aos processos industriais.
Mas o acanhado desenvolvimento tecnológico desse segmento da indústria ainda é um obstáculo à consolidação de técnicas para acelerar a produção e reduzir o impacto nos canteiros. “Os novos sistemas precisam ter requisitos de segurança, além de um ótimo comportamento acústico, térmico e até de manutenção. E devem ser adaptados ao Brasil”, diz o gerente de desenvolvimento tecnológico e qualidade da Cyrela São Paulo, Alexandre Britez. Segundo ele, opções hoje adotadas por muitas construtoras, como paredes de concreto feitas em formas metálicas,não são novidade.No passado, já fracassaram em terras brasileiras por falta de estudos que previssem a adaptação dos materiais às condições e ao clima dos trópicos. Quando aparece um sistema, geralmente não se pensa na interface com a estrutura do prédio.”
Mesmo ressaltando a necessidade de investimentos em pesquisas, Britez acredita que a industrialização é a tendência para os e tornos próximos anos, especialmente pelos problemas enfrentados pela indústria com a qualificação da mão de obra. “Isso deve ocorrer principalmente na parte de fachadas”, prevê.
Pronto. Diversas empresas desenvolvemprodutospré- fabricados para vedação. A Knauf do Brasil tem, por exemplo,um sistema de paredes que promete acelerar em cinco vezes a execução da obra frente à alvenaria convencional. Basicamente, as chapas de cimento Aquapanel – com 1,2 metro de largura por 2,4 metros de altura – são parafusadas a uma armação metálica apoiada à estrutura do edifício.
“A empresa constrói a estrutura convencional, com vigas e pilares de concreto, e, em vez de fechar com alvenaria, ela faz com esse sistema”, diz o gerente técnico da Knauf, Omair Zorzi. O peso das paredes é também, segundo o fabricante, cerca de dez vezes menor. “Se for feita a relação de um metro quadrado de alvenaria convencional como sistema Aquapanel, obviamente o último vai custar mais. Mas, se for comparado o todo,nosso sistema vale mais a pena”, defende. Para Britez, os pré-fabricados devem,no entanto,ter uso restrito nos residenciais – pelo menos no curto prazo. Mas os prédios comerciais e industriais,mais padronizados, aceitam bem as peças industrializadas.
No interior do Estado,a Sudeste Engenharia produz paredes de concreto pré-moldadas principalmente para galpões industriais.“
Não é necessário retrabalho, é rápido e não tem que ficar passando gesso ou massa. Além disso,não há patologias(como fissuras)”, explica o diretor da empresa, Divanir Casagrande.
Escala. Voltada ao segmento econômico – beneficiado pelo programa Minha Casa,Minha Vida –, a Tenda Construtora adotou há dois anos o sistema construtivo de paredes de concreto moldadas em formas de alumínio em substituição à estrutura de concreto armado convencional. “Garante o ciclo da construção, a qualidade e a otimização dos materiais e demão de obra”, diz o diretor técnico da empresa, Ronny Boucinha. Ele estima que a economia da obra possa chegar a R$ 7 mil por unidade, e o tempo de execução dos projetos ser até 30% mais veloz. “Estamos trabalhando com algo entre 26 e 30 pessoas, de acordo com o equipamento.”
Com a escolha pelas formas metálicas para a produção em escala, a construtora teve de padronizar seus projetos. Segundo o vice-presidente de tecnologia e qualidade do Sindicato da Construção (Sinduscon-SP), Paulo Sanchez, as placas têm alto custo e grande durabilidade, demandando a produção em série. “A parede de concreto tende as e popularizar. Mas só se usa essa tecnologia quando o nível da construtora é maior”, explica. No segmento popular,o sistema mais com um é, segundo Boucinha, a alvenaria estrutural, boa opção para edifícios com até 20 andares. “Mas sentimos dificuldades para encontrar mão de obra para assentar os blocos.”
No sistema que adotou, a Tenda qualifica seus colaboradores para operar os equipamentos.
Tradicional. Para grande parte das empresas,o sistema convencional, com alto uso de mão de obra e de materiais, ainda é a opção mais adotada. Especialmente para os padrões médio e alto, a possibilidade de personalização e a grande variedade de plantas nos projetos dificulta a adoção de novas técnicas. “Tenho 35 anos de formação (em engenharia), e construímos basicamente da mesma forma.
O que melhorou foram as peculiaridades do material”, diz o diretor técnico da construtora Trisul.
Sérgio Bassi.
Em busca de gerenciamento mais eficiente
● Se a maior parte das construtoras ainda investe no sistema tradicional de construção, as inovações ocorreram na melhoria do gerenciamento das obras. A construtora Trisul, por exemplo, estabelece metas semanais para acompanhar o andamento de seus projetos. “Estamos com todas as nossas 22 obras no prazo”, diz o diretor técnico da empresa, Sérgio Bassi. Denominado “Lean”, o método pretende evitar a postergação dos prazos de obra. “Se uma etapa atrasar, atrasa todas as outras”, diz. Além de realizar reuniões semanais, a Marques Construtora tem um programa de verificação diária de cada etapa executada no canteiro de obras. A empresa espera, com isso, resolver pontualmente os problemas no canteiro, reduzindo custos e desperdícios.
Indústria quer inovar, mas operário teme desemprego
Com o desafio de cumprir prazos e de buscar sustentabilidade, as construtoras movimentam- se para resolver os entraves à inovação no setor. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) executa, há dois anos, dez projetos voltados à resolução do que considera gargalos – tributação que induz à produção ‘in loco’, baixa capacitação para inovar, desarticulação das pesquisas universitárias, falta de padronização mínima de materiais, pouca diversidade de laboratórios para a homologação de novas técnicas, limitada disseminação das novidades às empresas,ausência de uniformidade dos códigos de obra em todo o País, falta de atualização das normas técnicas e baixa inovação em obras públicas. “O setor, após o Minha Casa, Minha Vida, tem se movimentado. Sem isso, não temos como atender ao mercado do jeito que estão os preços e a mão de obra”, diz o presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade da Cbic, Sarkis Nabi Curi. A sua expectativa éde que os entraves sejam resolvidos no médio prazo. Trabalho. Por parte dos operários do setor, a animação não parece ser a mesma. “Os riscos com a industrialização é o desemprego”, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), Antonio Ramalho. Segundo ele, há no País 3,4 milhões de trabalhadores formais na construção civil, e 69% da mão de obra está na informalidade. /G.C.
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